terça-feira, 28 de junho de 2011

O impulso, o bolo de veludo americano e os relacionamentos.

Noite passada recebi uma ligação do meu irmão, Igor, que constatou que tinha um mês que não nos encontrávamos. Ele andou ocupado com problemas na família e eu andei ocupado dividindo meu tempo entre a auto-escola, procurar o que fazer e colecionar encontros ruins (e evitar a maioria deles). Então finalmente marcamos um dia, pra catch up, ver o show mais recente da Kylie Minogue, e cozinhar.

Recentemente mostrei a ele um tumblr que encontrei, que posta umas receitas tão bonitas que você tem vontade de morrer. Ele ficou tão empolgado que de supetão resolveu que iríamos fazer o Red Velvet Cake. Fizemos a lista mental dos ingredientes na cabeça e separamos o que iríamos ter que comprar. Assim. Do nada. E tudo ficou acertado.

Então lá estava eu com a receita em inglês mal impressa do bolo. Como sempre faço quando vou cozinhar alguma coisa, separo os ingredientes meticulosamente – talvez por gostar de organização, ou por programar minha mente pra acreditar que estou num programa de televisão – e encaro a receita. Pelo menos umas quinze vezes. E volto nela durante a execução pelo menos umas dez vezes.

Antes de eu continuar, deixe-me perguntar uma coisa a vocês: vocês sabem o que é buttermilk? Antes que pensem, não, não é uma espécie de manteiga (que meu professor de inglês do colégio não esteja lendo isso) nem nada parecido.

Buttermilk é uma coisa popular nos Estados Unidos, mas não é mainstream aqui no Brasil. Não faço idéia do motivo, mas não é. Buttermilk é soro de leite coalhado (powered by Google translator) e nós só fomos descobrir isso no meio da receita. Que vergonha. Vou por a culpa no impulso e tá tudo bem.

E lá estávamos nós, metade da receita pronta, parte da massa brilhando num vermelho vivo no pirex e a incumbência de inventar buttermilk pairando sobre a gente. Pesquisamos a internet, pesquisamos a vizinha, até que chegamos a um consenso, fizemos qualquer coisa parecida e um abraço. Buttermilk no jeitinho brasileiro. (N.E.: e agora vejo que é tão simples de fazer, que por Deus... I can't.)

Na hora de desenformar o primeiro dos bolos (são dois só) Igor fez o favor de deixá-lo cair na mesa. Nada sério: algumas lágrimas caíram, mas tudo ficou bem. Às vezes as coisas não saem como planejado e encontramos uma situação problema. A questão é se o todo é relevante a ponto de se confrontar essa situação. Guardem essa parte, eu volto nela com uma metáfora sensacional daqui a pouco.

O segundo bolo foi tranqüilo (eu desenformei, a-hem), o único problema foi que ele resolveu ficar pronto no meio de uma luta chata no Final Fantasy XIII. Pause game. Volta-se pra cozinha, dessa vez pra fazer a cobertura.

Eu nunca tinha visto tanto açúcar de confeiteiro na minha vida num local só e à minha disposição. A tarefa era misturar o cream cheese, a margarina e aquele montão de açúcar. E olha, demorou. Um bocado. Depois de pronto, pude afirmar que nunca tinha provado algo tão intensamente doce na minha vida de uma vez só.

O que é bom pro final: a cobertura e o recheio são violentamente doces, a ponto de você não conseguir consumi-los sozinhos; e o bolo em si tem um gosto muito sutil. Eufemismo a parte: ele quase não tem gosto de nada, o que o deixaria difícil de consumir sozinho. Mas quando você põe os dois juntos, é incrível ver como eles se completam. A profusão de doce se junta à massa do bolo e os dois são uma injeção de felicidade na sua boca.

O saldo final foi positivo. O Red Velvet Cake ficou bom, bonito e pesado! Descobri o que diabos é buttermilk e umas trinta formas de substituí-lo quando ele aparecer sorrateiramente numa receita futura. E a gente ainda se divertiu!

Agora sobre a situação problema citada anteriormente, eu fiquei pensando nela enquanto o segundo bolo assava. Se não me importasse tanto o resultado final, se eu não ligasse pro bolo a tal ponto, eu poderia ter desistido ali. Feito só com a parte boa, ou jogado de qualquer jeito a parte quebrada na hora de montar.

Ao invés de fazer isso, de optar por esse caminho fácil, rearrumei o bolo, aproveitando os pedaços partidos e juntando com a parte menos destruída. Pegando as partes difíceis e as colocando pra trabalhar a favor do todo.

Ao fazer isso, não pude deixar de pensar em relacionamentos (como se não pensasse nisso o tempo todo). É bem mais fácil você deixar o bolo quebrado pra lá quando você não se importa com o todo. Quando você acha que não vale a pena lutar, joga tudo pro alto mesmo sabendo o que teve que ser feito pra chegar no bolo assado e tudo o que foi sentido e modificado no processo.

Filosofia num Red Velvet Cake.